Percurso pela escola como lugar de reprodução de poder até a educação no ritmo da terra
- Gabriela Gomes
- 3 de dez. de 2025
- 10 min de leitura
Os integrantes do movimento refloresta estão experimentando o mundo de diversas maneiras. Dentro do movimento temos artistas, estudantes de cinema, arquitetura e muito mais!
Dessas experiências fora do movimento, muito se conecta com quem somos, várias produções são feitas como esse trabalho da integrante Gabriela Gomes, participante da primeira jornada do movimento reFloresta que está se formando em pedagogia. O tema do seu trabalho de conclusão de curso surgiu a partir de suas vivências dentro de sala de aula e na Amazônia. Aqui está o trecho do trabalho onde ela desenrola sobre a ideia de uma educação no ritmo da terra.
"Parafraseando o último título do livro “Futuro Ancestral” do autor indígena contemporâneo Ailton Krenak, “Coração no ritmo da terra”, caminhamos agora para a finalização deste trabalho.
Até aqui, fizemos uma construção da forma como a educação tem sido pensada e praticada. Fabricação de massa de manobra, alienada da realidade e cada vez mais dentro dos interesses do mercado. Porém, muitas pessoas pensam caminhos possíveis para enxergarmos juntos, diferentes maneiras de se conduzir a educação. E para além do pensar, viver e construir em coletivo a maneira pela qual vamos conduzir nossas crianças e jovens no mundo.
Ailton Krenak, nos presenteia em seus livros “Futuro Ancestral” e também em “ideias para adiar o fim do mundo” com as possibilidades de se pensar o mundo. O autor nos convida a ideia de “reflorestar” nosso imaginário, que nos leva à reflexão de se pensar o mundo para além do capitalismo. Não estamos alheios a esse sistema, muito pelo contrário, estamos inseridos e vivendo o neoliberalismo. Porém, existem outras maneiras de vivermos. Isso se conecta diretamente à educação. Estamos inseridos nessa lógica capitalista, neoliberal, machista, patriarcal e tantas outras nomenclaturas, as mesmas que foram criadas para traduzir as consequências desse sistema falho.
Hoje, vivemos crises em várias esferas. Social e ambiental. Ailton Krenak nos faz refletir sobre a ideia de sustentabilidade. Essa palavra foi inventada pelas grandes corporações para mascarar o que as mesmas têm feito com a natureza desde que foram inventadas.
Como vimos até aqui, o sistema capitalista não só cria barreiras sociais, como também, afeta o nosso meio ambiente. Não existe educação sem terra saudável para as crianças, jovens e para nós, adultos. Vivemos a maior crise ambiental já vista na história. Temperaturas altíssimas em épocas indeterminadas, não temos mais a noção de estações, falta de água, comida e mais uma infinidade de dados que chegam até nós todos os dias. As mudanças climáticas são consequência das ações humanas na terra. Esse cálculo nos leva a reflexão da nossa desconexão com o planeta graças ao sistema no qual estamos inseridos desde o nosso nascimento.
A ideia de um “futuro ancestral”, que o autor Ailton Krenak nos presenteou, é a possibilidade de coexistiremos com a terra e isso se aplica diretamente com a educação pois, não há infância, não há educação, sem uma terra terra saudável.
Cosmovisões e possibilidades de se imaginar o mundo
No capítulo “Coração no ritmo da terra”, Krenak nos leva a pensar na educação do presente e futuro. E nos mostra que pessoas de diferentes culturas andam construindo esse novo imaginário de educação.
Quando entramos na escola, já começamos a ganhar ferramentas (ou somos forçados, mesmo que inconscientemente), para nos moldar. Isso desconsidera que ao nascermos, somos seres humanos completos. Quando olhado por outra perspectiva, onde as crianças são completas, já carregam um mundo em si e que a escola, é esse espaço de trocas, saberes, e compartilhamento de vida, temos outra visão da criança e da educação, onde as mesmas, se desenvolvam e se encantem com o mundo, para que assim, atuem nele. Krenak então nos mostra:
“Que é bem diferente de moldar alguém, que compreendem que todos nós temos uma transcendência e que, ao chegarmos ao mundo, já somos — e o ser é a essência de tudo. As outras habilidades que podemos desenvolver, como possuir coisas, seguir uma profissão ou governar o mundo, são camadas que você acrescenta à perspectiva de um ser que já existe.” (Futuro Ancestral, 2024, p. 83).
O autor em seu livro, conta de diferentes rituais olhando para a infância, onde cada uma delas tem seu espaço para existir plenamente desde o seu nascimento.
"Esse lindo ritual carrega a mensagem de que nós já chegamos aqui como seres prontos. É de grande respeito dizer: esse ser já existe, não precisa de uma fôrma, ele quem nos informa quem é que chegou ao mundo" (Futuro Ancestral, 2024, p. 84).
Os Guaranis realizam um batismo chamado nhemongaraí, que acontece por volta do dia 25 de janeiro, durante o Ano Novo deles. Nesse ritual, o pajé, situado dentro da opy, a casa cerimonial, canta e defuma as crianças recém-nascidas que estão nos braços de suas mães. Ele assopra e observa atentamente para reconhecer quem são os seres que chegaram ali. A partir desse ritual, as crianças são nomeadas, mostrando assim, que elas já existem, são seres completos, e que estão nos presenteando chegando ao mundo.
Essa maneira de se viver a experiência humana parece distante, quando, neste trabalho, passamos por essa desumanização do ser humano. Dessa simplificação da experiência humana aqui na terra, mas os povos originários nos convidam a repensar que tudo o que está ao nosso redor, pode ser transformado. A ideia de reflorestar o nosso imaginário, é uma provocação para nós, que estamos inseridos nesse sistema de alienação, para nos conectarmos com aquilo que é mais profundo do ser humano, que é a experiência de existir.
A educação no ritmo da Terra, então, é uma forma de repensarmos a maneira que conduzimos a educação. Pensar na infância e juventude desconectada da terra, é uma fatalidade. Precisamos coexistir com esse espaço que nos recebe desde o nosso nascimento, e o ambiente escolar, é um lugar onde podemos trabalhar essa construção para um reflorestar de imaginários. Quando consideramos que as crianças já são seres completos, olhamos integralmente para cada uma delas. Quando damos ferramentas para que as mesmas desenvolvam senso crítico, estamos construindo a possibilidade de um presente possível, pois o futuro é incerto.
“Para começar, o futuro não existe — nós apenas o imaginamos. Dizer que alguma coisa vai acontecer no futuro não exige nada de nós, pois ele é uma ilusão. Então, pode-se depositar tudo ali, como em um jogo de dados. Infelizmente, desde a modernidade, fomos provocados a nos inserir no mundo de maneira competitiva. Essa competitividade, incentivada ao longo de séculos, acabou criando um mundo de competidores. Se o futuro der certo: "Bingo!". Contudo, a realidade é que estamos cada vez mais projetando futuros muito improváveis, mesmo assim continuamos preferindo essa ilusão ao presente.” (Futuro Ancestral, 2024, p. 97).
Nesse mesmo trecho, Krenak nos lembra de Chimamanda Ngozi, que ao pensarmos a educação por essa perspectiva afunilada, caímos no perigo da história única.
“Projetar um futuro dessa forma traz um grande risco, pois vem acompanhado de ansiedade, raiva e uma forte aceleração do tempo. Estar sempre focado no futuro, e não no que nos cerca, está diretamente ligado ao sofrimento mental que aflige muitas pessoas, inclusive Essa experiência afeta profundamente os jovens, permeando todos os aspectos de sua vida e refletindo em seu estado emocional. O vasto ecossistema do planeta Terra também sofre o impacto do estresse causado por essa aceleração. Mesmo assim, essa realidade é inegável. Muitos cientistas têm observado como as crianças vivenciam a infância atualmente. Diversos estudos indicam que, nos últimos trinta ou quarenta anos, esse período tem sido cada vez mais reduzido. Em vez de ser um tempo de tranquilidade, as crianças já estão enfrentando essa fase como se estivessem sobre uma chapa quente, onde são obrigadas a responder às demandas de um mundo em constante degradação.” (Krenak, 2024).
Existem diversos movimentos que visam abrir espaço para uma nova forma de se pensar a educação e de se existir no mundo. O movimento sem terra, por exemplo, abriu suas escolas como forma de resistir às repressões que envolvem a educação pública:
"O MST tem construído um projeto de educação herdeiro das lutas pelo direito à educação pública no Brasil. Suas escolas e práticas educativas visam contribuir com a construção da sociedade socialista. Constitui-se uma pedagogia da e em resistência, pois é construído no processo de organização das famílias sem-terra na luta pela Reforma Agrária. As escolas do MST têm como objetivo a formação de lutadores(as), construtores(as) de uma nova sociedade, o que exige mudança da forma e do conteúdo da escola, bem como do papel dos(as) educadores(as). Por isso, estas escolas sofrem perseguições da classe burguesa, no sentido de criminalizá-las, indicando suas práticas educativas como não legítimas." (Educação contra a barbárie, p. 175)
O MST, com 34 anos de existência (1984-2019), luta pela reforma agrária e pela educação pública nas áreas de assentamentos e acampamentos, vendo as escolas como espaços fundamentais para a formação humana e a consciência social dos trabalhadores. Inicialmente, a luta focava na educação fundamental infantil, mas a partir de 1987 ampliou-se para incluir alfabetização, educação de jovens e adultos, educação infantil e, mais recentemente, acesso ao ensino superior. Na década de 1990, intensificaram-se as lutas por escolas de ensino médio e educação básica em todos os níveis, apoiando o projeto de Reforma Agrária Popular voltado à criação de assentamentos com infraestrutura educacional e comunitária completa. (Educação contra a barbárie, 2019)
O projeto educativo do MST está alinhado com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e suas escolas são formalmente reconhecidas como parte da rede pública de ensino, o que garante que seus currículos e práticas pedagógicas obedecem aos marcos legais do país, assegurando a validade dos diplomas e o cumprimento dos direitos básicos previstos na legislação educacional brasileira. Essas escolas passam por aprovação dos órgãos reguladores municipais e estaduais, reforçando seu caráter legal e institucionalizado.
A LDB prevê a gestão democrática da educação pública, caracterizada pela participação da comunidade escolar — incluindo diretores, professores, funcionários, alunos e pais — nos processos decisórios da escola. O projeto educativo do MST enfatiza essa gestão democrática, propondo uma estrutura organizativa que envolve todos no processo de decisão, com direção coletiva, auto-organização dos estudantes, coletivos pedagógicos e divisão de tarefas, valorizando a participação comunitária como elemento fundamental para a construção do projeto pedagógico. A pedagogia adotada pelo MST dialoga com a LDB na medida em que busca uma formação integral do ser humano, contemplando aspectos produtivos, sociais, culturais e históricos.
O MST promove uma pedagogia da resistência que educa para a consciência crítica e a luta social, ampliando a proposta formativa da LDB, que prevê a formação para a cidadania. A LDB destaca a necessidade do controle social no sistema público de ensino, o que inclui a participação efetiva da comunidade na gestão escolar. Nas escolas do MST, essa participação vai além do aspecto formal e constitui a base para a construção de uma educação que reflete os interesses e as lutas das famílias sem-terra, fortalecendo os vínculos entre escola e comunidade rural e contribuindo para a legitimidade e a efetividade das ações educativas. No entanto, apesar do alinhamento legal com a LDB, as escolas do MST enfrentam perseguições e tentativas de criminalização devido à sua resistência às tendências privatistas e ao antagonismo com setores burgueses, revelando as tensões entre o projeto de educação pública defendido pelo MST e os interesses econômicos e políticos que buscam deslegitimar essas iniciativas.
Dessa forma, o projeto educativo do MST promove a realização dos princípios da LDB, especialmente no que se refere à educação pública, gratuita, democrática, laica e de qualidade, garantindo o direito social à educação dentro das comunidades rurais, em consonância com os marcos legais brasileiros e com um forte compromisso com a transformação social e a inclusão dos trabalhadores do campo.
Uma marca fundamental dessa trajetória é o protagonismo das crianças, adolescentes e jovens que vivem nos acampamentos e assentamentos, organizados em eventos chamados Encontros dos Sem Terrinha. Nestes encontros regionais, estaduais e nacionais, os jovens estudam temas como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e criam ações de reivindicação, como marchas, passeatas e audiências de negociação com governos, além de participarem da Jornada da Juventude Sem Terra, que promove a auto-organização dos jovens entre 15 e 29 anos.
As escolas do MST são escolas públicas, conquistadas por pressão sobre órgãos governamentais, e seguem a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Elas têm aprovação dos órgãos reguladores municipais e estaduais, o que as torna legalmente constituídas. Essas escolas contam com a participação da comunidade e promovem um diálogo constante entre famílias, educadores e estudantes. Ao todo, o MST conquistou cerca de 1.500 escolas públicas nos assentamentos e acampamentos, das quais aproximadamente 120 oferecem ensino médio, 200 ensino fundamental completo e o restante outras etapas iniciais da educação básica.
Nas escolas do MST estudam aproximadamente 200 mil crianças, adolescentes, jovens e adultos, com atuação de cerca de 10 mil educadores(as). O trabalho do MST na alfabetização de jovens e adultos é expressivo: só em 2018, mais de 30 mil educandos foram alfabetizados, com cerca de 8 mil educadores atuando diretamente nessa ação. Nos últimos anos, pelo menos 50 mil jovens e adultos foram alfabetizados pelo MST.
Além da educação básica, o MST oferece também cursos técnicos de nível médio e até cursos superiores, em parceria com universidades e institutos federais. São cerca de 50 turmas técnicas e superiores, com aproximadamente 2 mil estudantes cursando graduação em áreas como pedagogia, direito, geografia, história, entre outras.
O MST compreende a educação como parte integrante da luta social e da formação da consciência dos trabalhadores, entendendo que a escola no campo deve ser ocupada e gerida pela classe trabalhadora, construindo um projeto educativo que reflita as necessidades, contradições e demandas da luta pela reforma agrária. Esse projeto educativo está estruturado em um conjunto de materiais e práticas pedagógicas, conhecido como pedagogia do MST, que busca uma formação integral, omnilateral, baseada em uma visão materialista histórica da educação e contrapondo-se a modelos privatistas e mercantilistas que negam o direito social à educação.
Além disso, o MST se posiciona contra a substituição das escolas públicas por modalidades como a educação a distância ou domiciliar, defendendo que a socialização em espaços coletivos é fundamental para o processo educativo.
O MST apresenta um projeto de educação pública no campo que envolve resistência, protagonismo popular, participação comunitária, formação integral e luta contra as privatizações e políticas excludentes, ampliando a educação desde a infância até o ensino superior em territórios de reforma agrária. (Educação colntra a barbárie, 2019)
O Movimento reFloresta
No ano de 2023, um movimento sem fins lucrativos foi criado. O movimento foi reFloresta tem como propósito conectar jovens de todo o Brasil (e agora do mundo), com a Amazônia e pela Amazônia. Com uma imersão de mais ou menos uma semana, jovens são expostos a realidade dessa floresta tão documentada por jornais, políticos e pessoas de fora. Essa experiência visa proporcionar para quem se conecta a verdadeira Amazônia e o porquê de preservá-la. Com conexão direta com os povos, os jovens têm a oportunidade de se conectar com a história e com esse lugar que nos possibilita a vida do planeta. Com relatos de diferentes lugares do mundo, podemos perceber a potencialidade desse movimento quando estamos falando sobre reflorestar o nosso imaginário na prática. Quando exercitamos algo de verdade e nos conectamos com aquilo, temos a possibilidade de recriarmos uma ideia que antes era fixa.
Os jovens que participam do movimento, têm a oportunidade de conhecer a escola da comunidade, que fica na beira do rio Arapiuns, na Amazônia do Pará. A escola é pública e abraça os estudantes da região e busca trazer os saberes indígenas para dentro de sala de aula.
Existem várias pessoas pensando o mundo, e movimentos como esses, que ultrapassam a sala de aula, são espaços onde podemos trabalhar e recolher ferramentas para pensarmos uma educação que nos faça de fato olhar o mundo e assim, atuar no mesmo."
Pela Faculdade Rudolf Steiner
Orientador: Marcelo Rito
Avaliadora: Cristina Velasquez


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