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“A COP do povo”

A Conferência das Partes (COP) ocorre anualmente desde 1995, reunindo líderes mundiais para negociar o futuro do planeta. Mas para entender o vivido em 2025, precisamos olhar para o passado. Desde o primeiro grande encontro em Estocolmo (1972), quando o Brasil ainda defendia o "progresso predatório" sob a ditadura, a Amazônia tornou-se um objeto de fascínio global.

Criou-se, ao longo das décadas, um "sonho amazônico": a comunidade internacional idealizava a floresta como algo místico e distante, enquanto ignorava quem vivia nela. Mesmo na histórica Rio-92, quando o mundo voltou seus olhos para o Brasil, havia um abismo. Enquanto diplomatas discursavam em salas refrigeradas, indígenas e ribeirinhos viajavam dias para serem notados, gritando uma verdade incômoda: os Estados sozinhos não resolveriam o problema.

Foi ali que se percebeu que a verdadeira "sala de reunião" sempre esteve do lado de fora, nos atos de resistência.

E foi com essa bagagem histórica que chegamos à COP30. Anunciada em Dubai em 2023, que prometeu ser a "COP do Povo", realizada no coração da floresta. Mas a preparação foi marcada por contradições: obras massivas, polêmicas ambientais e uma logística excludente que, dificultou o acesso do próprio povo para perto das negociações.


A Chegada

Assim, em 14 de novembro de 2025, pousei em Belém para presenciar esse evento de perto, em uma viagem não planejada. Como estudante de Relações Internacionais e pesquisadora na área, vinha acompanhando as notícias desde a decisão tomada na COP28.

Sob o calor sufocante de Belém — que parecia gritar a urgência climática discutida ali —, dirigi-me ao Parque da Cidade, um local de lazer inaugurado há dois anos. Originalmente um dos grandes investimentos de legado para a cidade, agora ele abrigava as instalações da COP. Não precisei de muito tempo para perceber que Belém fervilhava. A cidade havia se transformado na capital do mundo.

Tudo acontecia ali, fosse dentro dos portões da conferência ou fora deles, em eventos paralelos, shows culturais e, principalmente, nas movimentações de resistência dos povos indígenas. Mais uma vez, 33 anos após a Rio-92, o povo lutava para ser visto; lutavam hoje para garantir que não precisariam lutar amanhã.


Havia apenas dois dias que os povos indígenas tinham avançado sobre a famigerada Zona Azul em um ato de desespero completamente justificável, clamando por justiça, respeito e pelo fim do assassinato de suas lideranças, demarcação de suas terras e direito de sobreviver. A resposta foi imediata: a Belém exibia um policiamento ostensivo nos arredores da COP, com homens fortemente armados — uma reação do Estado após as queixas da comunidade internacional à UNFCCC sobre a segurança.


A  Zona Verde


Ao chegar à Zona Verde, em meio ao burburinho de diversos idiomas e à venda de artesanatos, vi pessoas que nunca tiveram contato com o tema tentando compreender aquela imensidão. De repente, escutei um cântico. Muitos pararam para ver. Eram indígenas do povo Pataxó, do Sul da Bahia.

De forma firme, ainda que com a voz embargada pela emoção, clamavam pela demarcação de suas terras e lamentavam a morte de seus líderes. Um deles declarou, ecoando pelo corredor repleto de estandes de grandes empresas:

"É por nossa causa que ainda existe Mata Atlântica no Sul da Bahia. Se precisar, vamos 'ilhar' nossas terras. Não precisamos desse sistema atrás do qual ficamos correndo; colhemos, plantamos e comemos o que tem em nossas terras e somos felizes assim".

A Zona Verde, no entanto, guardava também espaços de construção, com palestras e debates nos quais os cidadãos podiam engajar-se em temas como tecnologia sustentável, educação ambiental e o andamento das negociações. Indígenas vendiam sua arte e pintavam grafismos nos visitantes. Na entrada, manifestações constantes gritavam palavras de ordem contra desastres e crimes ambientais que, embora combatidos ali, podiam estar ocorrendo a milhares de quilômetros de distância.


Perspectivas Locais: O Legado e a Lacuna


Encontrei pouso em Ananindeua, na região metropolitana. Ali conheci o Renzo, morador local, formado em Filosofia pela UEPA e atual doutorando pela UERJ. Ativo e engajado sociopoliticamente, Renzo foi um dos selecionados para a iniciativa da ONG Climate Reality Project — organização fundada por Al Gore que treina líderes climáticos globais. Ele atuou como negociador jovem na delicada questão do financiamento climático, tópico usado pelo Sul Global para exigir prestação de contas do Norte. 

Perguntei a ele como a população local recebeu a preparação durante esses dois anos. Renzo destacou duas perspectivas. A primeira, positiva: a cidade nunca recebeu tantos investimentos, o que se refletiu na infraestrutura, na rede hoteleira, na geração de empregos e na capacitação (como o ensino de línguas). O outro lado da moeda: a falta de conhecimento sobre o que é, de fato, a conferência, o que são as mudanças climáticas e o porquê de tanta gente estar ali.


Percebi isso empiricamente em viagens de aplicativo, onde motoristas relatavam os desastres que assolam a região e se diziam a favor da preservação, mesmo sem entender a tecnicidade do evento. Renzo completou dizendo que as fortes chuvas amazônicas e o contato real com o bioma chamaram a atenção dos negociadores estrangeiros. Por fim, exaltou a verdadeira hospitalidade do povo paraense, que tem orgulho de receber e apresentar sua cultura a quem vem de fora.


A Marcha dos Povos


No outro dia, aconteceria a marcha dos povos pelo clima, com a sociedade civil tomando as ruas de Belém. O símbolo máximo desse momento foi um boneco em formato de cobra que, além ser um animal da região, carregava os desejos da população, cobrando os líderes mundiais.

Se via por lá pessoas de diferentes origens, movimentos sociais, gritando, clamando, com cartazes críticos a empresas e ao agronegócio, pedindo encarecidamente para viver com qualidade, por um futuro possível. Esse tipo de manifestação não existia desde a COP em Glasgow no ano de 2021. A diversidade era notável; populações que nunca tiveram a oportunidade de contar suas verdades estavam diante as câmeras do mundo, carregando seus símbolos e suas cores. O povo avançaria até a entrada da COP, porém a segurança reforçada os pararia um pouco antes.


Adentrando a Zona Azul


No decorrer do dia, realizei meu credenciamento e tive acesso à Zona Azul da COP. Passando por um esquema de segurança rigoroso, similar ao de um aeroporto, senti que adentrava um novo mundo.

Tudo acontecia ali dentro: uma diversidade de pessoas movimentando-se freneticamente com notebooks em mãos, circulando entre salas de reunião e estandes de organizações e países. Um detalhe curioso ilustrava a tentativa de sustentabilidade: o consumo interno só era possível com um cartão recarregável de bambu, estampado com o Curupira, mascote da COP30.

Nos estandes, palestras simultâneas apresentavam iniciativas globais sobre clima. Com o cronograma em mãos, navegava por aquele espaço para entender onde meu acesso de observadora era permitido. Nos dois dias em que frequentei aquele pavilhão, vi uma diversidade de rostos que jamais presenciei. Em pouco tempo, pude ouvir jovens amazônidas discutindo conectividade na ação climática, enviados do Greenpeace deliberando planos de desmatamento zero e até adentrar um salão onde a Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, debatia com lideranças globais indígenas sobre a preservação de suas culturas e territórios.


Reflexões na Casa Chico Mendes


Fora dali, em um centro universitário local, a Fundação Chico Mendes instituiu a Casa Chico Mendes, com uma exibição sobre a trajetória do líder seringueiro. Foi nesse espaço que tive o privilégio de acompanhar um debate sobre um filme que abordava a cosmovisão indígena e os ensinamentos do Cacique Raoni. A mesa era composta por um cineasta francês, um cacique brasileiro, a Princesa Esmeralda da Bélgica e Thomas, um líder indígena da Califórnia.

O debate foi extremamente profundo. As lideranças expuseram a dificuldade de traduzir sua cosmologia para o mundo ocidental e como suas soluções, embora cruciais para o planeta, são menosprezadas. Uma frase dita ali ecoou forte:

"O problema de reconhecer a sabedoria ancestral é que ela não gera lucro".


Por isso, não chega às principais mesas de discussão. Thomas complementou com uma crítica estrutural: a ONU, ao aceitar apenas Estados-nação, cala as vozes indígenas como nações independentes. Seus problemas são tratados em seções à parte, não como questões centrais, o que serve mais para segregá-los do que para integrá-los. Thomas, especialista em mercado de carbono não para participar, mas para dissecá-lo, explicou com propriedade como esse mecanismo falha e muitas vezes é usado para prejudicar os povos originários.


O Verdadeiro Legado


Sai de Belém com a sensação de ter testemunhado um marco histórico. Se por um lado o documento final ainda enfrenta o desafio de ser mais assertivo sobre o fim dos combustíveis fósseis, por outro, celebramos vitórias inegáveis. O Brasil firmou sua liderança ao aprovar o mecanismo para a Transição Justa e o fundo vitalício para florestas tropicais — avanços concretos que levamos conosco. Mas o maior legado da COP30 não está apenas no documento final. Ele está no fato de ter sido o palco da maior participação indígena de todos os tempos. A luta ganhou novos contornos, novas vozes e, finalmente, foi vista pelo mundo inteiro a partir do coração da floresta. A diplomacia fez a sua parte, mas fui embora com a certeza de que a verdadeira transformação nasce desses encontros humanos e da nossa capacidade de insistir na esperança.

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